segunda-feira, 6 de junho de 2016

nexo explícito


conheces
aquela fronteira em que a vida
palpita entre um mamilo túrgido
e um peito amputado?

é nesse degrau,
nesse devão,
que os dedos tropeçam em ti
tentando ler sinais do teu fumo
nos escaparates sem letra de forma,
nos manuscritos em que te manuscrevo
em cenas de nexo explícito
onde a carne é fraca
demais
para tanto tesão

um samurai vindo de manágua
trouxe um litro de leite fresco
tão fresco, ainda por ordenhar,

bebe-o


(podia usar uma metáfora
para te dizer que
tenho ânsia de fodermos


ganha essa ânsia também
e que se foda o recurso poético
e a epiderme dos desejos
que travestimos de palavras)

um dia
talvez à noite,
uma tormenta
trará novamente a chuva
e banhar-nos-emos
na sua fúria molhadiça.



(c) SPA2016 Carlos Clara Gomes
Foto: (c) Eros, de Matt Freedman

sexta-feira, 3 de junho de 2016

terra cúpida


nem sei bem, se queres saber,
quantos mortos até hoje murmuraram
com piedosa doçura no último sopro
teu ávido nome

tu, cúpida e puta,
chão de nascidos num chão que não chamam de seu,
gritas no silêncio da noite da história o nome de próceres idos
uivando à luz da lua o mel de deuses pagãos
que sincretizaste em teus filhos
que pariste para dares de comer
à fogueira ufana da tua vaidade vã

e na vanglória dos tesouros sacros
que espoliaste aos pobres
em nome do deus de quem és tributária
cantas árias, hinos e sonetos
onde definiste a linha das fronteiras
por guerras de marcos e rixas de bairro
entre os teus feitores e capatazes

ao céus pedes que a benta água venha regar
os rostos dos simples e dos devotos dos teus santos
enquanto com o inferno estabeleceste contrato
de fornecimento do fogo onde arderão blasfemos
que não orem nos altares de fome e sangue
que cronistas a teu mando e por tua sanha
edificaram em livros a que chamaste história

és cúpida e puta (sim!),

pátria assassina, meretriz, cróia,
insaciável antropófaga e pedócida,
mãe desnaturada, cadela ávida de orgias
em que te lambuzas e fazes definhar teus amantes
de cada vez que os congregas no teu ritual de morte
planando sobre as almas esfaceladas e perdidas
daqueles a quem ainda resta algum amor por ti

vai-te foder, pátria cúpida!

e leva contigo a vergonha que nos fazes passar
em nome dum passado histérico
que a história cristaliza no mostruário inanimado
que expões à saciedade da sociedade faminta
de comer os restos mortais do teu cadáver putrefacto e asqueroso

leva contigo a vergonha e unta com ela o olho do cu
para que a sodomização pela qual anseias não te fira tanto o canal.

(c) Carlos Clara Gomes

 

negra maré, leviatã


equidistante de tormentas
eleva-se, leviatã,
na curva da serena praia
descoberta em vão
no tornozelo das eras

é foragida recorrente
de falsas quimeras
e dúbios entretantos
que distribuem gnoses
por peles curtidas
em sagas de velhacarias
sedentas de sal do sul
e sôfregas de sangue cru

cada poro é um sudário
cada cabelo, um exorcismo
toda sua pele é um lençol
tecido de basalto humano
 
a todo o momento
ouve poetas ribombando
versos de ignotas marés
que conhece bem
apenas pelo cheiro
que a memória guardou
quando habitou casas
de que se não lembra

todos esses condomínios
naufragaram em antares
em mares elogiados
por prosaicos prosadores
e no occipital distraído
dalgum mareante menos afoito

e,
no final da constelação,
julga ter encontrado
a paz dos tempos
num arremedo de fado
que lhe foi trazido
embrulhado numa morna quente
por um arquipélago que a sonha,
obsceno e lúbrico.

(c)  SPA2016 Carlos Clara Gomes