sexta-feira, 3 de junho de 2016

terra cúpida


nem sei bem, se queres saber,
quantos mortos até hoje murmuraram
com piedosa doçura no último sopro
teu ávido nome

tu, cúpida e puta,
chão de nascidos num chão que não chamam de seu,
gritas no silêncio da noite da história o nome de próceres idos
uivando à luz da lua o mel de deuses pagãos
que sincretizaste em teus filhos
que pariste para dares de comer
à fogueira ufana da tua vaidade vã

e na vanglória dos tesouros sacros
que espoliaste aos pobres
em nome do deus de quem és tributária
cantas árias, hinos e sonetos
onde definiste a linha das fronteiras
por guerras de marcos e rixas de bairro
entre os teus feitores e capatazes

ao céus pedes que a benta água venha regar
os rostos dos simples e dos devotos dos teus santos
enquanto com o inferno estabeleceste contrato
de fornecimento do fogo onde arderão blasfemos
que não orem nos altares de fome e sangue
que cronistas a teu mando e por tua sanha
edificaram em livros a que chamaste história

és cúpida e puta (sim!),

pátria assassina, meretriz, cróia,
insaciável antropófaga e pedócida,
mãe desnaturada, cadela ávida de orgias
em que te lambuzas e fazes definhar teus amantes
de cada vez que os congregas no teu ritual de morte
planando sobre as almas esfaceladas e perdidas
daqueles a quem ainda resta algum amor por ti

vai-te foder, pátria cúpida!

e leva contigo a vergonha que nos fazes passar
em nome dum passado histérico
que a história cristaliza no mostruário inanimado
que expões à saciedade da sociedade faminta
de comer os restos mortais do teu cadáver putrefacto e asqueroso

leva contigo a vergonha e unta com ela o olho do cu
para que a sodomização pela qual anseias não te fira tanto o canal.

(c) Carlos Clara Gomes

 

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